Ópera

Um Sucesso do Carnaval de Veneza: La Finta Pazza.

Um dos mais importantes eventos operísticos do ano está bem longe dos holofotes, dos live streaming e telas de cinema: a produção da Opéra de Dijon e da Opéra Royal de Versailles de La Finta Pazza, de Francesco Sacrati (1605-1650) com libreto de Giulio Strozzi (1583-1652) que abriu, no carnaval de 1641, a temporada do Teatro Novissimo em Veneza.

Só para dar uma ideia da importância desse título, do qual passaremos a ter o primeiro registro completo graças ao maestro Leonardo Garcia Alarcón, foi nele que teve origem a cena de loucura, tão popular no mundo da ópera. Foi o primeiro sucesso operístico de Veneza. O sucesso foi tão grande que transcendeu os limites da Sereníssima e mesmo as fronteiras italianas: foi a primeira ópera apresentada na França, em 1645, tendo na plateia o jovem futuro rei Louis XIV, então com 7 anos de idade.

Mais que uma ópera de sucesso, La Finta Pazza foi um evento: marcou, conforme já observamos, a inauguração do Teatro Novissimo, o primeiro teatro projetado especialmente para ser um teatro de ópera e gerido não por uma família nobre, mas pela Accademia degli Incognite, à qual Strozzi pertencia, juntamente com outros libretistas importantes (como Giacomo Badoaro e Giovanni Busenello).

Fazendo um pequeno parêntese, só por essa observação em relação aos proprietários do Teatro Novissimo já é possível perceber a importância dos libretistas na ópera veneziana do século XVII. Em linhas gerais, ao contrário do que viria a ocorrer no século seguinte e que perdura até hoje, eram eles que contavam com o maior status, sobretudo do ponto de vista intelectual, e não os compositores.

Voltando a La Finta Pazza, dada a importância do evento, os Incognite providenciaram intensa e eficiente propaganda. O libreto e um volume com a descrição da badalada cenografia e maquinaria de Giacomo Torelli foram publicados com antecedência e alcançaram grande popularidade. Para tornar o evento mais aguardado ainda, a protagonista era a badaladíssima soprano Anna Renzi, a primeira diva da ópera. Se toda a expectativa se converteu em grande sucesso, como observa Alarcón no programa de sala da Opéra de Dijon, isso se deveu à grande qualidade da música. Foi essa música que abriu as portas da França para a ópera e que, muito mais que tornar o Teatro Novissimo uma referência local por alguns anos, semeou e espalhou o sucesso do gênero.

Finta_pazza_decor_4
Projeto do cenário de Torelli.

“Se (…) compararmos a música de Sacrati à de Monteverdi – escreve Alarcón no programa –, perceberemos que ela já é bem mais ornamentada, com mais coloratura, uma virtuosidade mais explícita, o que Monteverdi tentava evitar a menos que o texto lho propusesse, o que o aproxima da ópera mais antiga”. Ele nota, contudo, certa semelhança entre as harmonias de Sacrati e o célebre dueto final da ópera L’Incoronazione di Poppea, de Monteverdi, parte cuja autoria é questionada: “Em La Finta Pazza eu redescobri esse tipo de harmonia e de intervalos que podemos ouvir em Pur ti miro, de L’Incoronazione di Poppea, que para mim é claramente uma intervenção de Sacrati na partitura”. Sacrati era discípulo de Monteverdi.

Sabe-se pelas várias edições do libreto – que, para o desgosto de Strozzi, foi sendo modificado ao bel prazer das companhias que encenavam a ópera Europa afora – que houve importantes variações entre as diferentes apresentações. Merece destaque a retirada das referências a questões específicas de Veneza na versão de 1644, única partitura disponível e base para a edição produzida por Alarcón. Na versão original, por exemplo, em uma clara brincadeira entre a trama da ópera e o evento que ocorria na realidade, Deidamia, a protagonista vivida por Renzi, dirige-se ao público e pergunta:

Che melodie son queste?
Ditemi? Che novissimi teatri,
che numerose scene
s’apparecchiano in Sciro?

(Que melodia é essa? / Diga-me! Que novíssimos teatros, que numerosas cenas estão sendo apresentadas em Esquiro?).

Na versão de 1644, utilizada por Alarcón, todo o início do terceiro ato, inclusive essa referência que certamente fez sorrir o público veneziano, mas nenhum efeito causaria fora do Novissimo, foi modificado.

Para o público de Veneza, porém, a alusão à cidade era bem mais ampla que gracejos pontuais do libreto. Embora o enredo de La Finta Pazza não trate diretamente da guerra e queda de Troia, está a ela ligada, trata de Aquiles, na ilha de Esquiro, prestes a partir para o combate em Troia. No imaginário veneziano pairava o chamado mito de Veneza, segundo o qual a Sereníssima era herdeira de Roma que, por sua vez, o era de Troia. Desse modo, temas ligados a Troia eram bastante comuns na Veneza do século XVII; Dido, Eneas, Ulisses, Penélope, Helena… todos esses personagens frequentavam bastante os palcos venezianos.

Desde o nascimento do guerreiro Aquiles, a nereida Tétis, sua mãe, foi avisada por um oráculo que ele haveria de morrer em combate. Como é usual na mitologia grega, ela tenta driblar o destino, mas sem sucesso. Para tornar o filho inviolável, totalmente protegido, Tétis mergulha o recém-nascido no rio. Na verdade, ela o deixa quase totalmente inviolável: os calcanhares, partes onde ela segurou a criança para realizar o mergulho, não tiveram contato com a água e, portanto, tornaram-se a parte vulnerável de seu corpo. Sabendo da existência do autêntico “calcanhar de Aquiles” e ciente da profecia de Calcas de que Aquiles morreria se fosse combater em Tróia, Tétis resolve disfarçar o filho de mulher e o escondeu na corte do rei Licomedes, na ilha de Esquiro, para que ele fosse educado junto às filhas do rei. Uma delas, Deidamia, envolveu-se com Aquiles, dando-lhe um filho. É nesse ponto que começa a ópera com Odisseu (ou Ulisses) e Diomedes, também instruídos por Calcas, indo procurar Aquiles, considerado indispensável para o combate em Tróia, na corte de Licomedes.

La-Finta-Pazza-Gilles-Abegg-Opera-de-Dijon-L1130585-20190206190313-regular

Em uma cena que cria o teatro dentro do teatro – enfatizando os diferentes níveis do jogo entre ilusão e realidade que, segundo Ellen Rosand em seu livro Opera in Seventeenth-Century Venice: The Creation of a Genre, referência absoluta sobre o tema, são um importante aspecto da obra – Ulisses e Diomedes, apresentados às filhas de Licomendes, usam um estratagema para que o instinto guerreiro de Aquiles o revelasse. Entusiasmado com a partida para o campo de batalha, Aquiles mal se lembrava de Deidamia e sua promessa de casamento. O coração – e o título – da obra vem da ideia de Deidamia para tentar impedir Aquiles de partir e abandonar a ela e ao filho. Deidamia resolve se fazer de louca. E o faz tão bem feito que convence a todos. Nessa ópera a loucura não se reduz a uma cena, mas está presente em várias. E com tanta criatividade, com música tão variada, tão rica, que podemos afirmar que a loucura estreou de forma ousada e significativa. Não foi à toa que a prática se sedimentou.

O curioso é que no segundo ato, durante todas as cenas em que Deidamia participa como louca, Aquiles não está lá para ver o “estrago” que estava causando. Isso só acontece no terceiro ato. E aí outra prática, já comum no teatro falado, passa a fazer parte da ópera: fingir estar dormindo. Deidamia, além de fingir estar louca, finge adormecer e, dormindo, induz Aquiles ao arrependimento e tem, com ele, um belo dueto, com marcantes, embora curtos, momentos de lirismo.

Além da música que, embora seja anterior ao “reinado” das árias, é bastante variada, repleta de mudanças bruscas, alternando momentos mais introspectivos com danças, a qualidade do libreto também merece ser apontada. Para quem conhece as outras óperas da época, sobretudo as que possuem libreto que seguiam a fórmula de Giovanni Faustini – sátiras que sempre envolviam troca de casais e diversos personagens –, que entraria na moda poucos anos mais tarde, é surpreendente a objetividade do libreto na construção do enredo e seu humor refinado. Além disso, pode ser considerado um texto feminista, Deidamia tem uma atitude corajosa e consegue manipular a todos. Lida com a questão de gênero, aliás, desde o início, quando Aquiles se liberta de seu disfarce.

Sem dúvida, mais uma vez o grande maestro Leonardo García Alarcón à frente da Cappella Mediterranea – que tivemos o privilégio de ver em São Paulo em novembro de 2017 graças à Sociedade de Cultura Artística – fez história, dessa vez na Opéra de Dijon, em coprodução com a Opéra Royal de Versailles. Em 2013, também na França, no Festival de Aix-en-Provance, Alarcón ele já havia redescoberto, com grande sucesso, Elena, de Cavalli. Poucos anos depois, Eliogabalo, Il Giosone e Erismena, do mesmo compositor. Agora traz de volta, em grande estilo, La Finta Pazza.

A loucura (seja ela real ou simulada), cantar fingindo estar dormindo e a canção dentro da ópera, recursos utilizados em La Finta Pazza, possuem um importante papel sobretudo nessa época inicial do gênero: justificar o canto. Tornar o ato de se comunicar cantando verossímil era uma preocupação que gerava grandes discussões e explicações em prólogos dos libretos. É, portanto, bastante interessante observar como Sacrati se utiliza desses momentos para deixar o canto fluir de forma mais solta, melodiosa.

Merece destaque o desempenho de Mariana Flores, soprano de destaque no mundo barroco, no papel de Deidamia, fazendo as vezes de Anna Renzi. Já observamos que a música é repleta de mudanças, essa característica se acentua nas cenas de loucura. Ela venceu com bravura esse desafio, e conseguiu transmitir em seu canto o lirismo de seus momentos de súplica e de amor, a dor por ser trocada tão facilmente pela batalha, a firmeza da resolução de lutar por seu amado.

Todo o elenco, aliás, é digno de elogios. Tudo muito bem articulado, todos muito bem entrosados.

Para encerrar, uma ótima notícia: é possível ouvir, pela internet, o áudio da gravação da Opéra de Dijon pelo site https://www.francemusique.fr/emissions/dimanche-a-l-opera/dimanche-a-l-opera-du-dimanche-24-fevrier-2019-69272 .

Para acompanhar, o libreto de 1641, que embora não exatamente igual à versão reconstruída ajuda muito, pode encontrado em http://www.librettidopera.it/zpdf/fintapazza.pdf .

O programa de sala da Opéra de Dijon pode ser encontrado em http://operaback.opera-dijon.fr/flipbooks/programme-de-salle-la-finta-pazza/?_version=408&nocache=0.5943732395344935 

La-Finta-Pazza-Gilles-Abegg-Opera-de-Dijon-L1140001-20190206190655-cover